Português que ninguém ensina na escola: sobre as palavras que usamos e as que deixamos de usar

Existe uma palavra em português que está praticamente desaparecendo do uso cotidiano: “outrossim”. Significa “além disso”, “também”, e durante séculos foi parte natural do vocabulário formal brasileiro. Hoje aparece quase que exclusivamente em petições jurídicas — uma espécie de fóssil linguístico que sobreviveu num nicho específico enquanto o resto da língua seguiu em frente sem ela. Isso não é decadência. É a língua funcionando exatamente como deveria.

A ideia de que existe um português “correto” que está sendo destruído pelo uso cotidiano é uma das narrativas mais persistentes sobre a língua — e uma das mais equivocadas. A história do português é uma história de transformação contínua: palavras entrando, palavras saindo, estruturas se reorganizando, sonoridades mudando. O latim que deu origem ao português seria completamente incompreensível para um falante contemporâneo. A mudança linguística não é corrupção; é a evidência de que a língua está viva e sendo usada.

O linguista Carlos Alberto Faraco, um dos mais rigorosos pesquisadores da língua portuguesa no Brasil, argumenta que o que se chama de “erro” em português é quase sempre uma variante — uma forma que existe num determinado registro, numa determinada comunidade, num determinado contexto, e que não tem menos lógica interna do que a forma considerada padrão. “Nós vai embora” tem uma regularidade gramatical própria que o falante domina completamente. Chamá-la de erro é uma escolha política disfarçada de julgamento técnico.

Há palavras que o português brasileiro criou e que não existem em Portugal — e vice-versa. “Saudade” é frequentemente citada como intraduzível, mas o interessante é que ela é intraduzível para outras línguas, não para outros falantes de português. Em Portugal, “saudade” existe com peso similar. Já “cafuné” — aquele ato de passar os dedos nos cabelos de alguém com carinho — é uma palavra de origem africana que enriqueceu o português brasileiro de uma forma que o europeu não acompanhou.

O Listologia reúne listas de palavras raras, esquecidas ou curiosas do português que são um prazer genuíno de explorar. “Madrugada” é citada frequentemente como palavra sem equivalente exato em inglês — porque “dawn” é amanhecer, “night” é noite, mas aquele espaço entre meia-noite e o sol nascer tem um nome próprio em português que o inglês não tem. Esses pequenos tesouros linguísticos dizem coisas sobre como culturas diferentes recortam a realidade.

A entrada massiva de anglicismos no português contemporâneo é frequentemente tratada como ameaça. “Deletar” em vez de “apagar”, “tuitar” em vez de “postar no Twitter”, “printar” em vez de “imprimir”. O purismo linguístico protesta. Mas o português sempre absorveu palavras de outras línguas — do árabe ao tupi, do francês ao inglês — e as transformou em português. “Alface” vem do árabe. “Maracujá” é tupi. “Manequim” é francês. A língua é radicalmente hospitaleira quando precisa ser.

O que é mais revelador do que a entrada de novas palavras é a morte de palavras antigas. O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa mantém registros de palavras em desuso — e navegar por elas é uma experiência quase arqueológica. “Matasanos” era como se chamava um médico incompetente. “Brejeiro” era quem tinha humor sagaz e matreiro. “Enxovalhado” era quem estava mal-vestido ou em situação degradante. Essas palavras existiram porque havia situações que precisavam ser nomeadas — e desapareceram quando a língua encontrou outras formas de nomear as mesmas coisas, ou quando as situações mudaram.

Há também a questão dos regionalismos, que resistem bravamente à padronização televisiva e digital. O “oxente” nordestino, o “bah tchê” gaúcho, o “uai” mineiro — essas partículas linguísticas são mais do que expressões regionais. São marcadores identitários que as pessoas usam conscientemente como forma de dizer: sou daqui, carrego isso comigo, e isso é parte de quem sou. A pressão pela fala “neutra” dos apresentadores de telejornal criou, por reação, um apego maior às variedades regionais entre quem as fala.

O Listologia tem listas de expressões regionais brasileiras que revelam a riqueza de um país continental com variações linguísticas que um paulistano e um maranhense podem não compartilhar mesmo falando a mesma língua. Isso não é problema — é diversidade. O problema seria a homogeneização forçada que apaga essas variações em nome de uma suposta clareza que serve apenas a quem já está no centro.

No fim, o português que ninguém ensina na escola é o português que as pessoas realmente falam — com suas inconsistências, suas invenções, seus empréstimos e suas resistências. A escola tem um papel legítimo em ensinar registros formais, em ampliar o repertório. O problema é quando o registro formal é apresentado como a língua certa e tudo o mais como desvio. Ampliar repertório é diferente de substituir o que já existe. E o aluno que chega com uma língua rica, viva e carregada de história merece ter isso reconhecido, não apagado.

Compartilhe esse conteúdo!

Publicar comentário