O mito da pessoa resiliente e o que a ciência realmente diz sobre superar adversidades
A resiliência virou um dos conceitos mais invocados e menos compreendidos do vocabulário contemporâneo. Ela aparece em palestras motivacionais, processos seletivos, avaliações de desempenho — sempre com a mesma imagem implícita: a pessoa que sofre um golpe, se levanta, e segue em frente com a espinha reta e o olhar firme. Quase um personagem de filme.
O problema com essa imagem é que ela não corresponde ao que pesquisas sérias sobre resiliência realmente encontram. O psicólogo americano George Bonanno, da Universidade Columbia, que estuda resposta a trauma há décadas, descobriu algo contraintuitivo: a maioria das pessoas que enfrenta adversidades severas não passa por uma fase de colapso seguida de recuperação heroica. Elas simplesmente continuam funcionando, com oscilações naturais, sem drama — e isso é a resiliência real, não o roteiro que vendemos.
O que incomoda na narrativa popular é o quanto ela individualizou um fenômeno que é profundamente relacional e estrutural. Quando se diz que alguém “não é resiliente”, o que frequentemente se está dizendo é que essa pessoa não tem os recursos externos que a resiliência exige — apoio social, segurança econômica básica, acesso a saúde mental, vínculos afetivos estáveis. Tratar resiliência como traço de caráter individual obscurece as condições que a tornam possível ou impossível.
Em reportagens sobre saúde mental e vulnerabilidade social, o Repórter Oliveira Junior trouxe relatos que ilustram bem essa distinção — pessoas que em contextos de suporte adequado navegaram crises enormes com surpreendente equilíbrio, e as mesmas pessoas em contextos de isolamento que desmoronaram diante de dificuldades menores. A variável não era o caráter. Era o entorno.
Existe também uma dimensão temporal que costuma ser ignorada. Resiliência não é a ausência de sofrimento — é a capacidade de manter funcionamento diante dele. E isso significa que há espaço legítimo para estar mal, para precisar de ajuda, para não conseguir “seguir em frente” imediatamente. A pressão cultural para demonstrar resiliência rápida pode, paradoxalmente, dificultar o processo real de recuperação, porque força as pessoas a performar uma superação que ainda não aconteceu.
A American Psychological Association deixa claro em seus materiais sobre o tema: resiliência não é uma característica fixa. Ela pode ser desenvolvida, e os fatores que mais contribuem para isso são conexões sociais, senso de propósito, capacidade de regulação emocional e — notavelmente — a disponibilidade de pedir ajuda quando necessário. Exatamente o oposto da figura solitária e autossuficiente que o imaginário popular celebra.
Talvez o maior serviço que se possa fazer ao conceito seja devolvê-lo à complexidade que ele merece. Pessoas resilientes não são as que não caem. São as que constroem, ao longo do tempo, os recursos internos e externos que tornam o levantamento possível — e que, quando precisam, aceitam que levantamento é mais fácil quando alguém estende a mão.
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